Em 1993, apenas três anos após a aprovação do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, foi apresentada uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional), que propunha a redução da idade para responsabilidade penal. Depois dessa, em quase todos os anos foram apresentados PECs e PLs (Projetos de Lei) com igual ou pior teor. Foram aproximadamente 30 propostas em 23 anos do Estatuto.
Os sucessivos debates em torno da redução da idade para a responsabilidade penal nunca apontaram no sentido de aprimorar a lei, mas no sentido de desqualificá-la. Nos cabe, questionar por que um estatuto da importância do ECA reconhecido internacionalmente, como o melhor programa de direitos de Crianças e Adolescentes, sofre tantos ataques desde a sua aprovação? Esse questionamento é fundamental para que possamos fazer a defesa dos princípios da Lei nº 8.069 (ECA), e para isso precisamos compreender que princípios são esses.
Até a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente, a infância e adolescência, filha da classe trabalhadora era tratada como caso de polícia ou de justiça. Havia uma diferenciação clara do modo como a Justiça tratava os filhos e filhas da burguesia e os filhos dos trabalhadores.
Os filhos da burguesia, eram reconhecidos como crianças e adolescentes e em qualquer problema com a lei eram atendidos pela Vara da Família. Os filhos dos trabalhadores eram controlados pelo Juizado de Menores, que pela sua respectiva concepção os tratavam como 'menores' em situação irregular, apenas pelo fato de serem pobres, eram compulsoriamente criminalizados, institucionalizados e tinham os seus passos controlados permanentemente pela polícia e os auxiliares dos Juízes de Menores, os famosos Comissários de Menores. Com o ECA foi rompida essa dupla categorização de infâncias e passou-se a tratar universalmente crianças até 12 anos de idade e adolescente até 18 anos incompletos.
Os poucos direitos dos filhos da classe trabalhadora foram conquistados com muita luta e lentamente, por exemplo, a proteção contra a exploração no trabalho. Vejamos o caso muito debatido, a Lei do trabalho doméstico, em 2011 constatou-se que existiam 250 mil crianças e adolescentes exploradas pelo trabalho doméstico (dados do IBGE). E sabemos que 95% são meninas e cerca de 75% delas são negras e esse é um pequeno recorte da real situação.
Os direitos sociais que incluem a infância, em sua maioria, são conquistas recentes, principalmente no período da Constituição e pouco depois, um elemento importante foi o reconhecimento da fragilidade no cuidado com as crianças e adolescentes e uma vitória marcante foi considerá-los prioridade absoluta em todo o processo de organização e estruturação da sociedade. O presidente da república na época, tomou a iniciativa de sancionar a lei que estava engavetada devido à proximidade da realização da Cúpula Mundial para a Infância (1990), e sua decisão, portanto, não foi por convicção, mas sim pela pressão que sofria naquele momento.
O centro do debate não é a redução da maioridade penal. Essa é a fumaça que a elite de direita joga para esconder o debate real, e infelizmente pela campanha da imprensa comercial, encontra um espaço na sociedade. Hoje os trabalhadores são vítimas da indústria do consenso que a burguesia tem criado se aproveitando do baixo nível de consciência de classe, cujo objetivo é manter o controle sobre os filhos dos trabalhadores.
Um dos exemplos mais visíveis é um dos crimes mais bárbaros e chocantes que aconteceu nos últimos tempos: o assassinato do índio e líder Pataxó Galdino Jesus dos Santos, como era conhecido, queimado cruelmente enquanto dormia. Passados exatos 16 anos, os envolvidos (alguns adolescentes à época) estão bem, empregados - um até virou juiz de direito - e paira um silêncio sepulcral da mídia. Por que? Porque esses jovens eram filhos da burguesia brasiliense.
A justificativa dos juízes sempre são mais adequadas à sua origem social, que os adolescentes burgueses têm famílias estruturadas e os da classe trabalhadora não!
Vamos então aprofundar o debate: a primeira é sobre a farsa do aumento da violência, o total dos crimes graves cometidos pelos adolescentes, nunca chegaram a traços se comparados aos adultos, então porque existe toda uma mídia em torno de atos praticados por adolescentes?
O professor e jornalista José Arbex, da PUC São Paulo, denuncia a existência de um complô nas redações da grande imprensa contra os adolescentes, que indica que qualquer ato que envolva adolescente a pauta tem que aumentar, para dar mais destaque para essas situações, aumentando a sensação de insegurança que seria provocada pelos adolescentes.
Outra discussão falsa: O ECA nunca foi implementado em suas premissas totais no Brasil, dizer que os crimes de Adolescente é culpa do Estatuto é a lógica mais fantasiosa que alguém pode argumentar, essa legislação se efetivada, garantiria políticas preventivas que respondessem às necessidades da criança e adolescentes. Ao contrário, a lei, além de não ser implantada pelos governos, foi sendo mudada para pior, não cumprindo o seu papel. As vítimas reais sempre foram as crianças e adolescentes. O Brasil é o 4º pais do mundo em violência contra as crianças e adolescentes. Entre 1980 e 2010, aumentou em 346% o número de mortes de crianças e adolescentes, segundo o Mapa da Violência 2012.
Terceiro: É totalmente falsa a tese da redução da idade para que um adolescente possa ser criminalizado, segundo DEPEN (Departamento Penitenciário Nacional) em 2011, 56% dos encarcerados estavam na faixa de 18 a 29 anos, na prática a redução já está em vigor – e nem precisamos aqui debater qual a classe social e a etnia dessa população carcerária. O Brasil é hoje o 4º país que mais encarcera no mundo e o Sistema Prisional está totalmente falido não cumprindo os preceitos mínimos legais, e é nesse sistema que o governador paulista quer jogar os adolescentes para serem recuperados? Por que isso não é debatido em profundidade?
Constatado quem são as vítimas desse processo violento de criminalização de todas as ordens, é necessário discutir aquilo que ninguém discute: qual intencionalidade por trás desse debate? Por que é importante para o pensamento de direita não efetivar o ECA ou o que ainda resta dele? Por que é importante encarcerar os filhos dos trabalhadores, cada vez mais cedo? Por que as centenas e milhares de mortes de adolescentes e jovens nas periferias das grandes cidades não provocam tanta comoção para pedir a prisão dos governantes por não garantir as condições de dignidade de vida prevista na Constituição?
O Estado capitalista nunca assumiu o compromisso com os filhos do povo e sim com os da burguesia. Desse modo, a universalização da política não foi uma convicção e sim uma concessão em momento de ascenso da classe trabalhadora, esse não é um projeto da burguesia brasileira e por isso buscam combatê-lo com tanta ferocidade.
Atualmente nas grandes e médias cidades do Brasil, as periferias estão sitiadas. A imprensa empresarial não faz nenhuma questão de esconder: apresenta em horário nobre a população periférica, em especial a juventude, sendo achacada e morta pelo aparato de segurança pública do Estado. É visível que se trata de uma propaganda da lógica do encarceramento em massa, visto que a imprensa não pauta a necessidade de resolver os problemas relacionados à forma de coerção social, contenção e morte da juventude trabalhadora.
Esses são alguns dos argumentos que tem que fortalecer nossa convicção de que a redução da idade penal além de já ocorrer na prática, não resolverá os problemas de segurança pública pelos quais passamos, e nem é essa a intenção da elite dominante, já que qualquer política de segurança reforçaria as políticas sociais e não recrudesceria a violência contra a juventude, no entanto, como as políticas sociais alcançariam os filhos do povo, essas não são reforçadas e ainda passa por um processo de desmonte desastroso.
Outro aspecto importante é que esse debate tem sido colocado com muita intensidade pelos Partido de Direita e em especial pelo governador Geraldo Alckmin, não tem sentido, já que o estado de São Paulo é o maior violador dos direitos humanos das crianças e dos adolescentes e o principal ideólogo dessa política de segurança que massifica e recrudesce a violência contra a juventude. O CONDECA - Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, que deveria ter estrutura de Secretaria de Estado, não consegue sequer recolocar o seu site no ar, os representantes da sociedade civil são praticamente impedidos de participar das reuniões por falta de recursos para viagens e estadias. Está claro a política de asfixiar aqueles que tentam ha anos, fazer cumprir a Lei e essa é a questão chave a ser discutida.
A reflexão que temos que fazer é porquê não se respeita o mínimo que está previsto na lei, nem mesmo o mínimo de políticas básicas (saúde, educação, assistência, moradia, cultura, esporte e lazer) e ao invés disso, busca destruir a Lei para não executar suas premissas.
Nós não podemos ter dúvida de colocar em todas as lutas em que estamos inseridos, principalmente nas lutas por direitos sociais, a luta Contra a Redução da Idade Penal dos filhos de Trabalhadores. Essa tarefa nos pertence, na medida em que serão nossos filhos e filhas que pagarão o preço das consequências do que tem sido provocado pela atual lógica sócio-política da extrema direita no poder.
O jornal Folha de S. Paulo afirma que “93% dos paulistanos querem redução da maioridade penal”, e diz que o debate “voltou à tona” com o assassinato do universitário Victor Deppman, em São Paulo. O suspeito pelo crime seria um adolescente de 17 anos, mas “voltou à tona” devido à idade do criminoso ou por escolha da imprensa? Devem acontecer dezenas de crimes semelhantes por semana nas grandes cidades brasileiras. Mas poucos envolvem vítimas de classe média e se prestam tão bem à pauta conservadora da mídia comercial. Vale ressaltar que na mesma pesquisa 42% afirmaram que para reduzir a criminalidade é preciso criar políticas públicas para jovens.
A Fundação Casa divulgou que apenas 1% dos “adolescentes infratores”, cometeu crimes contra a vida mas a estatística recebeu pífia divulgação da mídia. Na verdade, há uma opção clara pelo exagero midiático dos crimes de adolescentes pobres, em prejuízo de números que desmentem a sua suposta sanha assassina. É assim que a grande mídia influencia a realidade em nome das elites de extrema direita. Apresenta um fato com grande destaque e, sob seu impacto, colhe dados apenas para confirmar as teses que defende subterraneamente.
A imprensa empresarial fala muito de impunidade, mas é ela que usa suas estatísticas construídas para criar o clima de medo que alimenta o conservadorismo e a manutenção de seus patrocinadores no poder, ajudando a justificar a violência policial responsável pelo verdadeiro massacre de jovens negros e pobres nas grandes cidades.
O Estado São Paulo ha mais de 20 anos se nega a cumprir a Lei 8.069 de 13 de julho de 1990 em sua plenitude e o resultado influência hoje os altos índice de violência envolvendo adolescentes, como infratores e mais dramático ainda, como vítima de extermínio por agentes do estado em ações de milícias paralelas e à margem da Lei. O Estado se nega a construir uma estrutura orgânica do Sistema de Garantia dos Direitos de Crianças e Adolescente-SDG, e por essa negligência vivenciamos hoje os efeitos da violência contra a classe média Paulista, que clama por vingança. Uma ínfima percentagens daquelas crianças com seus direitos violados se transformam em criminosos, no entanto quem os gerou? Vamos discutir com honestidade intelectual?
Em recente pesquisa verificou-se que, entre 53 países, 42 adotam a maioridade penal acima de 18 anos, mas suponhamos que seja aprovada a redução da maioridade penal para 16 anos. Os bandidos adultos passarão a induzir ao crime jovens de 15, 14, 13 anos, não seria mais honesto propor o extermínio de bebês que nascem de famílias pobres ou "sem estrutura"? Em alguns estados dos EUA jovens de 12 anos respondem criminalmente perante a lei, mas continuam metralhando escolas, porque ninguém deixa de cometer crimes em função da lei e sim por adotar comportamento coeso com as regras sociais.
Se aprovada a redução da maioridade penal, haverá que multiplicar os investimentos em construção e manutenção de presídios. Segundo o Departamento Penitenciário Nacional, o déficit atual é de 198 mil vagas, o nosso sistema carcerário (ou de calabouços) é meramente vingativo, sem nenhuma metodologia corretiva que vise à reinserção social e é nele que serão jogados os adolescentes. Michel Foucault, analisa que nossas elites políticas pouco interesse têm em reeducar os presos. Prefere mantê-los como mortos-vivos e tratá-los como dejetos humanos.























